domingo, 26 de março de 2017

Santana do Livramento, Economia no século XX.



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Santana do Livramento, Economia no século XX.

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Luciano Braga Ramos: Acadêmico de História ULBRA Gravataí, RS.

Por Luciano Braga Ramos

Publicado 27/01/2009

SANTANA DO LIVRAMENTO: ECONOMIA NO SÉCULO XX.

A importância deste trabalho está em poder contribuir para a pesquisa sobre o município de Santana do Livramento, explicando seu desenvolvimento econômico, assim como seu retrocesso no século XX. Dando ênfase ao papel da Companhia Armour, mostrando vários aspectos que explicam a realidade social, pela qual hoje passa o município devido à escassez de indústrias de grande porte.

A companhia Armour em Livramento

Santana do Livramento, localizada na região da campanha, no Rio Grande do Sul, desde sedo teve sua economia voltada para a agropecuária, sobre tudo para a pecuária extensiva, com o predomínio de grandes latifúndios, voltados para a criação de gado bovino e ovino. O primeiro significou a matéria prima essencial para o movimento da economia do município, sendo o grande fortalecedor das estâncias que abasteciam as charqueadas dos outros municípios, já que o estabelecimento de charqueadas dentro do município de Santana do Livramento se dará tardiamente, no início do século XX. (Shäffer, 1993, p.43).

Até a construção de estabelecimentos de abate em Santana do Livramento, o município era só então, criatório de animais, para a reprodução e engorda destinado ao mercado externo de venda do gado em pé, dando características de uma pecuária arcaica com métodos rudimentares de criação em grandes extensões, que nas primeiras décadas do século XX já não condiziam com as inovações de produção que começavam a se voltar para as exigências do mercado capitalista.

O funcionamento de charqueadas em Santana do Livramento, é recente se comparado aos demais municípios, que desempenhavam tal função a tempo. É só no ano de

1903, que os senhores Pedro Irigoyem e Francisco Anaya, uruguaios vindos de Montevidéu, estabeleceram-se na cidade de livramento. "em 1911 livramento já tinha quatro grandes charqueadas, Livramento constituía-se nesse momento o segundo maior centro de abate do estado, pois estava no centro da maior região de produção pecuária do estado e do Uruguai." (Albornoz, 2000, p.76).

Por outro lado, o início do século XX marca o aparecimento dos grandes frigoríficos de capital estrangeiro, que enxergavam grandes possibilidades de investimentos lucrativos, tanto no Uruguai, como na região da campanha do Rio Grande do Sul, pois essa região tinha um grande atrativo que era as estâncias produtoras da matéria prima própria para servir os interesses destes investidores. Assim, deu-se o estabelecimento de indústrias de carnes e derivados, como, a Swift, Armour, Wilson, Morris e Cudahy, foram chamados nos Estados Unidos de o "truste da carne". Então em 27 de fevereiro de 1917 instalou-se em Santana do Livramento a Companhia Armour, de capital norte americano com sede em Chicago.

O Frigorífico Armour comprou a charqueada Livramento, no local onde hoje se encontra o grande complexo industrial do frigorífico. Mas não é simplesmente um complexo de um frigorífico qualquer, O Armour também representou um grande complexo social, por comportar ali não só uma empresa, mas um formidável contexto social, incomparável na região para aquela época, estabelecendo na sua volta uma sociedade que começou a prosperar e viver em função do Armour, formando um contexto econômico e social que foi importante para o crescimento de Santana do Livramento. No local do frigorífico também existia: O clube social, campo de golf, quadra de tênis, campo de futebol, a casa dos funcionários solteiros com aproximadamente duzentos cômodos, onde ainda hoje se encontra ex-funcionários residindo nela, e as casas dos funcionários de auto escalão, também estas dispostas em quadras e cedidas aos funcionários conforme sua hierarquia. (Pimentel, 1943, p.218).

Claro que todo esse complexo em sua grade parte era destinado para o bem estar dos ditos funcionários de "capotes brancos". E uma ínfima parte dessas acomodações para os empregados que formavam a massa de operários, que na sua maioria eram contratados na

época da safra, quando as demandas por carnes frigorificadas aumentavam gerando aumento de emprego, que diminuía no período denominado "safra seca", onde a grande maioria era dispensado.

Para estes funcionários restava usufruir do campo de futebol jogando no time do Armour, este como local de aceitação e da socialização destes funcionários dentro das dependências da empresa. Como local de moradia destes operários destinava-se o local "do outro lado da cerca", (Albornoz, 200, p, 150) onde construíram suas casas de lata, nas circunferências do frigorífico, num loca que a empresa cedia para a construção de tais casas. Estas denominadas casa de lata, por serem forradas com refugo de latas da fábrica de latas que operava dentro das dependências do frigorífico, esses refugos eram vendidos aos operários, que se utilizavam dessa prática de forrar as casas de madeira com lata para se protegem das baixas temperaturas do inverno da fronteira. Assim o sol esquentava a casa durante o dia e a forração de lata contribuía para a conservação de temperatura durante a noite. Ainda hoje é possível observar tal prática nos locais limítrofes as dependências do Armour.

O período em que a empresa Armour se instalou em Santana do Livramento, no ano de 1917, é justamente o momento em que a Europa esta mergulhada na Primeira Guerra Mundial. Este acontecimento vem a contribuir para o avanço do "truste da carne" na região, pois estes visavam à exportação de carnes e derivados em conserva para a Europa, que no momento tem suas indústrias concentradas nos esforços de guerra, assim possibilitando a entrada de indústrias no Brasil, e Santana do Livramento se beneficia com a chegada do Armour e seu investimento na cidade. A carne teve uma grande valorização nesse período, o que contribuiu para um maior controle dos rebanhos, inovando transformando sistema de criar gado típico do Rio Grande do Sul. Esse controle que exigia maiores cuidados de seleção, de dosagem de vermífugos e vacinas preventivas, contribuem para o início da prática dos cercamentos, em conseqüência destes cercamentos, vai se ter uma dispensa do emprego de grande número de peões que antes se fazia necessário para lidar com o gado em grandes extensões abertas, "e o êxodo rural teve inicio." (Shäffer, 1993, p.50).

Essas melhorias se refletem na qualidade dos rebanhos atendendo as exigências dos padrões de exportação, tanto que para melhorar as condições de transporte do gado, aos poucos vai se extinguindo as tropas a pé e se da liberação da mão-de-obra dos tropeiros, substituída agora pelos vagões da linha férrea. O Armour vai possuir um terminal ferroviário, numa ligação com o ramal Livramento – Cacequi "da Viação Férrea do Rio Grande do Sul." (Pimentel, 1943, p.219).

Não há dúvida que a companhia Armour representava para Santana do livramento a mais importante indústria do município, sua instalação deu um novo impulso na economia local, e também para a vizinha cidade de Rivera, movimentando todo o comércio da região, empregando grande número de funcionários, colocando-se também como a principal fonte de receita dos cofres municipais, pois seus impostos correspondiam a cinqüenta por cento da arrecadação do município. Sua vinda para a cidade modificou os modelos antigos de produção pecuária e também a vida urbana, dando impulso a uma classe operária assalariada, com leis avançadas para o Estado, vendo que a empresa seguia um padrão de relações com seus funcionários baseado no Estado Oriental vizinho, "seus funcionários e operários os quais dentro do Estado, são os melhores assalariados." (Pimentel, 1943, p.221).

Essa prosperidade de Santana do livramento, muito associada à implantação da companhia Armour, seguiu muito bem durante o período de sua inauguração na cidade, que coincidia com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e até o final da Segunda em 1945. Esse momento é importante para a indústria da carne, já que a companhia Armour exportava em grande escala para todo o mundo, principalmente para os locais de conflito,e também os frigoríficos no sul, mostraram-se locais seguros para os investimentos dos capitais destas companhias estrangeiras, já que para esses lados os negócios prosperavam, em quanto o mundo assistia num curto espaço de tempo, dois conflitos mundiais, intercalados por uma crise financeira de grandes proporções.

Com o final do segundo conflito mundial os negócios nos frigoríficos do sul começaram a declinar, e com a Companhia Armour na cidade de Santana do Livramento não foi diferente. A partir do final da década de quarenta sua produção vai caindo

gradativamente, até o fechamento definitivo do frigorífico no início da década de 1990. A final de contas, esse capital investido no frigorífico era estrangeiro , não tinha raízes profundas dentro da sociedade santanense, como os tradicionais latifundiários, mas parece que isso não foi avaliado no momento em que tudo que interessava era a prosperidade momentânea, ninguém pensava que o Armour era a única empresa grande dentro do município, que representava oitenta e cinco por cento da produção do município. (Albornoz, 2000, p.116). Santana do Livramento vivia um desenvolvimento que não era auto-suficiente, e por isso, tinha limites, que estavam nas mãos do capital estrangeiro.

Esses grupos, bastaram encontrar outras alternativas mais rentáveis que a carne, que sofria uma queda considerável com a baixa das exportações, que desviaram seus investimentos para outros locais, como é de costume das grandes empresas multinacionais,que para elas só interessa o lucro.

Em 1972 ocorre a fusão que forma a Swifft Armour S.A, que em 1989 acaba sendo vendida para o Grupo Bordon, não prosperando em vista da competição com as cooperativas formadas por proprietários na região da fronteira, entra em concordata em 1994 "a empresa bajeense Cicade apoderou-se da Swuift Armour, tendo seu presidente declarado ter sido convencido a 'rodar a fabrica' pelo Governador do Rio Grande do Sul, Alceu Colares, recebendo para isso linhas de crédito nos bancos estatais. Alegando não ter chegado às suas mãos essa linha de crédito, fechou a fábrica" (Albornoz, 2000, p.127/128)

Santana do Livramento atravessa hoje, uma grave crise econômica, que vem se acelerando desde o fechamento do Frigorífico Armour, que pode se dizer era o motor da economia santanense, vendo que não foi tomada nem uma providência por parte das autoridades governamentais para suprir a falta que faz ao município a presença de uma indústria de grande porte, que possa dar emprego, substituindo o Armour nessa função. Pois o que se percebe, é que com o fim das operações do frigorífico, muitos outros estabelecimentos se ressentiram com a falta dos numerários econômicos que deixaram de girar dentro do comércio local, desestimulando assim o estabelecimento de outras indústrias e comércios na cidade. Gerando falta de perspectiva na sociedade local, que vê a saída para seus problemas e prosperidade de seus filhos, a ida para a capital ou outra cidade que tenha

condições de empregar esse excesso de mão-de-obra que tem Santana do Livramento, pela falta de locais de trabalho para sua gente, que na falta de recursos, continua o "êxodo" do início dos cercamentos na fronteira.

Referências:

Albornoz, Vera Prado Lima. Armour: Uma aposta no pampa. Santana do Livramento; Editora Sâmara,2000.

Pimentel, F. Aspectos de Livramento. Livraria Continente; Porto Alegre, 1943.

Shäffer, Neiva Otero. Urbanização na fronteira (a expansão de Sant' Ana do Livramento). Porto Alegre, Ed. Da Universidade /UFRGS/ prefeitura municipal de Sant' Ana do Livramento, 1993.


Porto das Canoas, Gravataí, História e Memória no Século XX

Texto revisto e publicado por mim.

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Porto das Canoas, Gravataí, História e Memória no Século XX

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Luciano Braga Ramos.

Acadêmico de História ULBRA Gravataí, RS.

Por Luciano Braga Ramos: publicado 5/02/2009

O PORTO DAS CANOAS, EM MEADOS DO SÉCULO XX.

Se espera com esse trabalho encontrar uma explicação para as modificações de Gravataí, no período de 1930 à 1975, elucidando os aspectos que estão mudando o Brasil e suas consequências para o Rio grande do Sul, com o foco para o município de Gravataí.

1. O Porto das Canoas, e a nova conjuntura econômica e social a partir de 1930.

A queda do Império do Brasil no final do século XIX, e a proclamação da República, não significaram para a sociedade brasileira de uma maneira geral mudanças significativas no âmbito econômico e social, apenas representou no início do século XX a confirmação e aumento do poder das oligarquias rurais, essas mesmas que ambicionavam o poder político, e geravam várias disputas partidárias pelas regiões do país, entravando a modernidade e industrialização concentrando a renda no campo e em mãos de poucos e mantendo relações de trabalho não capitalista, no sentido de negar direitos e mantendo peões subassalariados.

No início dos anos de 1930 ocorrem mudanças políticas importantes, que vão mudar o Brasil economicamente e socialmente, com o aparecimento de uma classe média, o incentivo da indústria, o interesse dos políticos de manipular as oligarquias rurais favorecendo parcialmente a ascensão de uma burguesia capitalista. Onde no Rio Grande do Sul, vão ser evidente as transformações nos modos de produção e nas forças produtivas.

O modo de produção corresponde à forma como uma sociedade utiliza seus recursos naturais, transformando-os, para formar assim, através das relações sociais, a base econômica de sua sociedade, pelo desenvolvimento das forças produtivas que são o

condicionador do desenvolvimento produtivo. Pois de acordo com Marx, até certo momento as forças produtivas determinam as relações de produção. Porém o desenvolvimento das forças produtivas levaria a uma contradição crescente em relação ao modo de produção, que a partir de certo momento passariam a ser obstáculos a sua expansão. [Marx, 2002, p. 50]. No Rio Grande do Sul, até 1930, vigorava um modo de produção pré-capitalista, com o emprego de recursos precários para a produção de manufaturas. Essa é uma visão geral da situação brasileira no início do século XX, que se transporta para um contexto regional e dentro do município de Gravataí, e que se tornam para o entendimento e interesse pelas mudanças que partiram do modelo nacional e afetaram a vida da população local, mudando aspectos econômicos e sociais, inserindo Gravataí que antes era local onde predominava uma agricultura de aspecto colonial e um meio de transporte para escoamento da produção, como o porto das canoas, que atendia as exigências desse transporte tanto de mercadorias como coletivo, para uma agricultura capitalista e industrializada que aos poucos foi mudando os modos de trabalhos locais que até os anos de 1950, vai cada vez mais atingir índices capitalistas de produção.

Não é novidade para ninguém que devido à precariedade das estradas brasileiras, problema esse que sempre foi patente nas nossas cidades e interior, em Gravataí até a década de 1930, seu acesso à capital, assim como seu processo de transporte e escoamento da produção se tornava praticamente inviável por via terrestre. Então o Rio Gravataí, foi uma via geograficamente importante para o desenvolvimento da cidade, desde seus primórdios, e até os anos 40 do século XX.

Uma visão geral da evolução histórica do sistema de transporte no Brasil, entre 1850 e 1950, mostra-se sua precariedade. [...]. Até o advento das ferrovias as mercadorias eram tradicionalmente levadas aos portos em lombos de burros, cuja utilização decrescia na medida da entrada daquele novo meio de transporte na região produtora. Entre tanto, a expansão da rede ferroviária, apesar de relativamente rápida em termos absolutos cobria uma área de fato pequena. [...] em 1948 são muito pouco se levar em consideração os milhões de quilômetros quadrados do território do país, [Linhares, 1990, p. 308].

A região de Gravataí, onde na década de 1930 acha-se o Porto das Canoas, é destituído de vias férreas e estradas de rodagem, (a primeira estrada e de 1934 ligando o

município à capital), porém o tipo de produção agropecuária dessa região tem seu escoamento garantido satisfatoriamente pelo Porto das Canoas com suas embarcações tocadas à vara e com as denominadas gasolinas, transportando produtos e pessoas até a capital. Dava-se também bastante importância para as carretas de boi que era como se transportava os produtos das propriedades até o centro de Gravataí, onde eram vendidos aos comerciantes, proprietários das tulhas, que eram depósito e armazéns na praça central da cidade, de onde eram reembarcadas em outras carretas para serem transportadas até o Porto das Canoas, e dali eram embarcadas rumo á Porto Alegre. Ainda hoje é possível verificar no local onde era o porto os alicerces das tulhas e depósitos, assim como as muretas de atracarem as embarcações às margens do porto no local conhecido atualmente como Passo das Canoas. "As gasolinas traziam mercadorias para os comerciantes que tinham depósitos no Porto das Canoas como, Pedro Dutra, Acácio Soares, Ary tubbs e outros." [Rosa, 1987, p.80].

O grande destaque era dado para a farinha de mandioca produzida nas inúmeras atafonas espalhadas pelo município, até os anos de 1930 foi o motor da economia de Gravataí, e esse tipo de mercadoria fazia parte de uma pecuária com características coloniais com técnicas rudimentares de produção, que por fatores políticos e econômicos, ocorridos a nível nacional , com a Revolução de 1930, vai começar a ressentir-se a partir de 1940, enquanto outros produtos de uma agricultura capitalista voltada para os interesses econômicos nacionais vão encontrar incentivos, numa modernização ou renovação das forças produtivas, que emanam do centro para periferia. Assim como a nova conjuntura governamental, a nível nacional que se da com a ascensão de Vargas à presidência da República.

Ao iniciar-se a Nova República, o Rio Grande do Sul [...] com sua economia [...] baseada na agropecuária abastecedora do mercado interno nacional e, secundariamente do comércio internacional. [...]. "celeiro do país" atribuído ao Rio Grande do Sul. [Pesavento, 1980, p.51].

Nesse sentido o Porto das Canoas foi essencial até os anos de 1930 e 1940, porque era e sempre foi até esse período, adequado com a realidade econômica e social local. Porém os anos 1930, é um momento de transição nas antigas relações agrárias, e também

com o crescimento das indústrias no Brasil, e o aparecimento tanto da classe média, como a classe operária, sobre tudo na região paulista, o mercado sul-rio-grandense na ótica do Governo Federal tem que se tornar definitivamente o "celeiro do Brasil", sendo assim introduzida e incentivada uma agropecuária dentro de um viés capitalista. Desmancham assim as práticas de cultivos de produtos do período colonial, que eram menos lucrativos e não atendiam as exigências e necessidades nacionais, o governo financia o plantio de produtos como feijão, arroz, batata, soja e fumo em folha, provenientes de uma agricultura capitalista.

Antes de 1930, apresentava-se o quadro de um governo oligárquico e de uma fração das camadas dominantes agrárias, após 1930, encontra-se um governo para a "burguesia", no atendimento aos problemas nacionais. [...] no decorrer deste processo, a indústria ia se aprimorando como a nova e predominante força de acumulação de capital. [Pesavento, 1980, p.49].

Pode-se perceber até aqui os fatores e mudanças políticas e econômicas que acabaram por tornar o Porto das Canoas inviável ao escoamento da produção. Ou seja, não era possível transportar arroz, por exemplo, em pequenas embarcações, pois essa é uma cultura em larga escala, não como a farinha de mandioca que poderia ser transportada em pequena quantidade, pois podia ser estocada em armazéns no porto, já o arroz precisa de silos mais sofisticados, nem se fala no gado , este só por terra para chegar ao matadouro em Porto Alegre. Pode-se observar na obra de Jorge Rosa, [1987, p.80] a fotografia de uma trilhadeira da Granja São Luiz, datando de 1950, atravessando o Passo dos Negros entre Gravataí e Viamão, dando mostras da introdução de inovações para a produção do arroz.

Essas novas culturas vão precisar além de incentivos fiscais, da produção de novas forças produtivas, pois já que representa uma mudança considerável no modo de produção, que antes era praticamente uma produção colonial, e agora estava se tornando uma produção para o mercado capitalista. E o Porto das Canoas enquanto força produtiva, que pertencia a um modo de produção que se encontrava em vias de transformação, vai acabar gradativamente, sendo superado por novas forças produtivas que estão se estabelecendo dentro de um sistema econômico que está em fusão, devido à tão conhecida capacidade

dinâmica de superação dos modos arcaicos de produção, que sempre tendem a serem engolidos pelo modo de produção capitalista.

[...] governo Flores da Cunha, desde 1932, fora uma política de desagravação fiscal. [...], destacando seu empenho no desenvolvimento de instituições públicas, saúde, criação do Instituto de Previdência do Estado (IPE), construção de estradas de rodagem, reparação de pontes, prolongamento de vias férreas, [...] início da construção do Frigorífico da Capital [...] matadouro modelo e do entreposto de leite de Porto Alegre. [Pesavento, 1980, p. 124; 137].

Está ai, desencadeadas as forças produtivas desse período, que substituem as antigas dentro do município de Gravataí, que por conseqüência vão alterando seu modo de produção, sobretudo chamam a atenção para a construção de estradas e pontes ligando a cidade à capital em 1934, promovido por Flores da Cunha. O foco produtivo agora por esses novos caminhos será, o gado, o arroz, e o leite, produto que atendem a nova ordem economia, além de a estrada pavimentada servir ao transporte de pessoas.

Assim, o Porto das Canoas vai perdendo sua significação econômica e em consequência social, porém, segundo dona Terezinha oliveira, filha de Adão Duarte, que trabalhou nas embarcações do porto na primeira metade do século XX em entrevista ao Correio de Gravataí em 2006, confirma o funcionamento do porto até 1948, transportando tijolos, telhas, verduras e outros produtos de pequeno porte, até ser consumido pelas novas tendências e rumos que a economia e a sociedade foram tomando de 1930 em diante, com aspectos de modernização irreversíveis para Gravataí, que começa aí seu caminho ao crescimento dentro da nova ótica política nacional, e para o presente resta-nos tentar salvar os objetos , os documentos e as falas desses personagens, para analisarmos a partir dessas memórias e objetos da cultura dessa época a história e identidade de povo de Gravataí.

2. Memória das Águas, 1948 o final do Porto.

A Cultura de uma época, de determinado grupo, seja cultura material ou imaterial, chega até nos pelas representações do passado, que se preservam na nossa sociedade pelo interesse que membros de uma sociedade têm em mantê-las, pois isso depende de um

intrincado jogo de poder e interesse de parte da sociedade. É por esses vestígios de cultura de uma determinada sociedade, que se estabelece ou se constrói a memória.

A memória pode ser considerada como representação do passado, lembranças de quadros sociais significativos, que servem de ponto de referência do grupo que a mantém viva no presente. Pois a memória só chega viva ao presente, se há o interesse de grupos em mantê-la para a construção de uma identidade social. A memória é resgatada pelos objetos materiais e testemunho oral.

A relação entre cultura e memória, se processa pela construção da identidade de memória de um grupo, associado à produção cultural de representante quadro social significativo. A memória mantém vivo os traços culturais do grupo para o presente, servindo para explicar a dinâmica cultural da sociedade. A memória pela preservação dos traços culturais serve de suporte para a história, que vai selecionar, questionar e refletir sobre as memórias.

A memória por seus laços afetivos e de pertencimento, é aberta em permanente evolução e liga-se a repetição e à tradição, socializando a vida do grupo social. A história ao contrário, dessacraliza a memória, constituindo-se tão só em representação do passado. [Felix, 1998, p.43].

Nesse sentido escrever sobre a história do Porto das Canoas, dando voz para esses agentes preservadores dessa memória pela tradição oral, é a contribuição essencial para se construir a história a partir dessas representações tanto orais como materiais. Assim sendo, através das falas desses agentes, com aquilo que ainda podemos contar, como vestígios materiais, busca-se preservar a memória coletiva dessas pessoas e de seu passado, de maneira que se possa auxiliá-los na construção de suas identidades.

Pois se entende que falar sobre esse tema, assim como qualquer outro tema, não é analisar o fato simplesmente pelo fato, mas sim notar todos aqueles elementos que dão sentido para explicação histórica. Ou seja, o Porto das Canoas foi constituído de cais, de armazéns, mas também de pessoas, de agentes sociais, que se relacionavam, que viveram determinado contexto histórico importante para a identidade da cidade, contexto esse que precisa ter suas representações resgatadas, para não ficar no esquecimento.

E por outro lado, assim preservamos um patrimônio material e imaterial, já que se percebe que para este tema os dois elementos, pelos documentos ainda encontrados e pela oralidade dos agentes ainda presentes, ou seja, essa memória se constitui também enquanto patrimônio desde que não caia no esquecimento, e é esse nosso objetivo maior. Para Reginaldo Gonçalves (2003). Patrimônio pode ser entendido como: bens de natureza materiais e imateriais, tomados individualmente, ou em conjunto, como é o nosso caso, e são os portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos grupos humanos.

Em nosso trabalho foi possível abordar tanto a historia oral como a documental, assim como o patrimônio material, como, os documentos, bibliografias imagens e objetos desde muretas e alicerces no local do porto, como o patrimônio imaterial que se constitui na fala das pessoas que vivenciaram ou foram testemunhas desse passado, como é o caso de seu Adão Duarte e de sua filha Terezinha Oliveira que se disponibilizaram a relatar suas memórias para a construção desse registro histórico.

É a partir dessa oralidade que se percebe a importância desse trabalho em resgatar esse recorte significativo para essas pessoas, percebe-se em suas falas o quanto esse local foi importante para a economia da época, como constam nos documentos e como essas falas vão ao encontro do testemunho dos documentos oficiais. O jeito como dona Terezinha se referiu a seu pai, trabalhando nos lanchões tocados à vara, parece que estamos vendo a cena das embarcações chegando ao porto, assim como ouvindo o rangido das carretas de boi chegando aos armazéns do cais tamanho a veracidade daquela narrativa de pessoa que realmente se emociona ao tocar no assunto. Devido ao estado de saúde de seu Adão que se emociona facilmente, e sua avançada idade, 82 anos, deixamos a critério de dona Terezinha sobre o que seu pai quisesse falar e como falar, sobre sua vida no porto:

A: "Tinha bastante movimento, de chegada e saída de embarcações."

A: "Os produtos transportados de lá para cá eram areia e cascalho, daqui para lá eram tijolos e farinha que eram transportados através de carretas puxadas a bois."

Quando ele se refere aos nomes das embarcações ele nos fala de três entre muitas.

T: "Que ele lembra Santa Vitória do Palmar, Marina, Edi."

A: "Começou a diminuir os movimentos por volta de 1948."

L: E sobre as pessoas que trabalhavam no Porto?

T:"Algumas que ele lembra que trabalhavam Alcides [...]."

T: "Observação na época que meu pai trabalhava com 10 anos, os barcos eram tocados a vara. sendo assim muito difícil de navegar. Anos mais tarde começaram a vir os barcos a gasolina e assim tudo ficou mais fácil."

T: "O meu pai também carreteava trazendo farinha da Vila Nova para cá." [Terezinha Gomes Oliveira; Adão Duarte, entrevista concedida a Luciano Braga Ramos acadêmico de Historia da UBRA Gravataí no dia 07 de abril de 2006].

Percebe-se o envolvimento dessas pessoas e como suas vidas foram durante bom tempo dedicadas à função econômica que o porto exercia nesse local, e como era dinâmica para à época esse comércio e sua ligação com as cidades vizinhas e do interior e com a capital. Esse comércio movido aqui de idas e vindas, também nos aparece em registros da alfândega, que hoje se encontram no museu Agostinho Martha em Gravataí.

Nota-se pelas falas as relações entre comerciantes e trabalhadores, carreteiros, estivadores, donos de olaria, e navegadores, e como esse local servia também como ponto de trocas de notícias e informações, assim como experiências, nas relações humanas convenientes para a época, no que se refere à economia política e sociedade, já que até ele vinham pessoas de Osório, Santo Antônio da Patrulha, Viamão, da própria Gravataí é claro, ao mesmo tempo em que chegavam pessoas de Porto Alegre, no transporte de passageiros, como médicos, advogados, entre outros e também mercadorias para abastecer o mercado interno. [Rosa, 1987.].

Pela entrevista fica claro também as transformações e evoluções técnicas nos transportes, assim como a notável decadência do porto por volta de 1948, comprovando que as bibliografias nos apontam, e como esse local vais perdendo uma significância como fator de circulação da economia e em conseqüência entrando no esquecimento.

Em 5 de fevereiro de 2006, Terezinha Oliveira também concedeu entrevista ao Correio de Gravataí como já foi mencionado no início do trabalho. A moradora é dona de um comércio na comunidade do Passo das Canoas, reafirma suas memórias do tempo do

Porto movimentado e de quando seu pai Adão Duarte trabalhava no Porto do Passo das Canoas.

As recordações da moradora vão mais longe. Seu pai Adão Duarte, atualmente com 80 anos trabalhava no Porto do Passo das Canoas. "Meu pai carregava de tudo naqueles barcos. Levava para fora de Gravataí e quando voltava trazia outras cargas. Ele conta que o Passo das Canoas era muito movimentado." "Recorda" [Correio de Gravataí, 2006, p.17].

Local que até então era uma artéria para o desenvolvimento dessa região, e agora a memória busca recuperar essas representações para contribuir com a história.

2.1 A Festa dos Navegantes e o início dos anos de 1970.

Gravataí, ainda freguesia foi fundada sob os cuidados da fé católica, e não poderia ser diferente, mas aqui a religiosidade se fez presente desde o início principalmente pela chegada de índios missioneiros após o Tratado de Madri e das Guerras Guaraníticas, que por sua vez também fossem desviados os rumos dos imigrantes açorianos, que devido à guerra na região das missões acabam se estabelecendo na região de Porto dos Casais e circunferências, até o litoral norte, por motivos que já se conhece, tanto guaranis como açorianos nessa época já compartilhavam da mesma religião de modo geral, cultivando suas crenças e santos católicos.

Desde cedo o caminho do Rio Gravataí, isso já "em 1769, por ordem do governador José Marcelino de Figueiredo [...], segundo documento do século XVIII." [Rosa, 1987, p.26], que ordenou a abertura da primeira rua em Gravataí até o porto por onde se dirigiam as pessoas à capela de Viamão e de Rio Grande.

Desse modo já era interessante o movimento nesse local, mas, a ocasião aqui de citar esse aspecto é só para mostrar que as festas de Navegantes são antigas na região e pelo que se pode levantar, durante o século XX, foi anual as procissões de Navegantes apenas tendo sido encerradas em 1971 devido a construção de FreeWay, que praticamente passou em cima da paróquia. Moradores ainda recordam o tempo em que a imagem de navegantes ficava na Escola Anápio Gomes, onde realizavam as missas e até comunhão. "[...], sumiu a

capela de Nossa Senhora dos Navegantes do Passo das Canoas. Sumiu também o salão paroquial e o Grupo Escolar Anápio Gomes, primeiro local onde a comunidade se reunia" [Correio de Gravataí, 2006, p.17].

Em 1999, iniciaram novamente as comemorações e a renascença da memória dessa comunidade, ajudando a compreender o seu passado, para cultivar a tradição e dar continuidade à construção da identidade e identificação dos moradores, e assim passando a seus descendentes à cultura das procissões e sua crença e sua relação com a existência do rio e sua história local. Ao mesmo tempo esses indícios à identificação e singularidade dessa comunidade em manter essa tradição portuária que se exerceu no rio e tudo que ambos representam de simbolismo e particularidades para nossa cidade.

A imagem da santa ficava na Escola Anápio Gomes, onde aconteciam as missas, primeiras comunhões e as festas da comunidade. Depois construíram um salão e as festas passaram a serem feitas ali. Quando a nossa capela estava quase pronta, inventaram a FreeWay e mandaram derrubar tudo. "conta Terezinha". [Correio de Gravataí, 2006, p.17].

Assim, com a derrubada e o fim desses locais, pode se supor pelos relatos, que no momento a sensação da comunidade foi a de desterro, daquilo que para essa comunidade era parte de sua socialização, assim como o fim do porto por volta de 1948 significou para essa comunidade uma ruptura em suas relações sociais, a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, foi à continuidade dessa primeira fase de desterro da identidade cultural. Então em 1971, pode se considerar a segunda fase de desterro, pois, atinge aquilo que dentro de uma visão culturalista, é caro à seus indivíduos em quanto grupo, que é a destruição de seu lugar de culto, não da crença dessas pessoas, mas da destruição dos locais de socialização.

Sabemos que cultura não se decreta, mas sim é um processo longo e cumulativo de saberes a aprendizados materiais e imateriais que a humanidade compartilha entre grupos, entre povos, sem que se obrigue ninguém a nada. "A coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence." [Laraia, 2005, p. 87]. Então a destruição desse patrimônio material, à igreja e o salão, destroem um longo processo social que não se pode simplesmente apagar da memória, tanto é que esse acontecimento

pode-se dizer que foi um choque para a comunidade, com o desaparecimento de seus locais de celebração religiosa, tanto que a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes realizada na comunidade, desaparece por vinte e oito anos, voltando somente depois que a comunidade conseguiu se reabilitar pelo passar do tempo, do trauma da perda ou retaliação dos seus locais de sociabilidade.

A comerciante ainda recorda da procissão de barco chegando pelo rio e, depois Nossa Senhora dos Navegantes sendo levada pelos moradores ate a capela: ‘A gente subia aquela estrada estreita rezando e cantando. Os foguetes explodiam quando a imagem chegava era muito bonito. E o Passo das Canoas também tudo era calmo. Mas no dia da festa a cidade inteira vinha para cá participar da missa, do churrasco e do baile.’ "Lembra." [Correio de Gravataí, 2006, p.17].

Não era simplesmente uma festa comunitária, pelo relato era uma festa para a cidade, que tinha sua atenção voltada para comunidade no dia santo. Pode-se dizer que foi tocado, não só no sentimento das pessoas da comunidade, como com a cidade acostumada às festas, mexeu na religiosidade como já foi dito, e sobre tudo com a mentalidade das pessoas, já que fica evidente a crença da comunidade em Nossa Senhora dos Navegantes. Percebe-se a relação mais forte entre a fé, o rio e a comunidade, pois recorrem à santa na esperança de serem atendidos. "Ela salvou meu filho" afirma dona Terezinha, contando do nascimento prematuro de Jorge seu filho mais velho, e com foi mandado para casa desenganado pelos médicos. Só restou a ela e seus familiares se apegarem à padroeira dos navegantes, e não por coincidência, é uma família, onde ela era filha de navegante e seu filho por conseqüência neto de tal, certamente pela sua fé a padroeira não os deixaria desamparados.

"[...] Jorge superou todas as doenças. Hoje é um pedreiro e carpinteiro respeitado no Passo das Canoas:"eu e minha mãe, Maria Lacy, nos dedicamos para cuidar do Jorge dia e noite. Ele era tão miudinho que a gente dava mamadeira com um conta gotas. Mas foi Nossa Senhora dos Navegantes quem salvou meu filho. Por isso Jorge desde pequeno acompanha a procissão." "conta ela." [Correio de Gravataí, 2006, p. 17].

Hoje, o retorno da festa de Nossa Senhora dos Navegantes, mais que o retorno de uma comemoração católica entre tantas, é sem dúvida uma volta às origens e celebração da

memória coletiva da comunidade do Passo das Canoas e da preservação histórica e cultural de um complexo cultural tão importante para toda a cidade de Gravataí, que em muitas circunstâncias, pela mídia e imprensa, órgãos políticos, não procuram aprofundar o estudo sobre por menores da história, e sempre tentam ver as coisas de maneira ampla, enquanto nos cantos da nossa cidade muitas vezes está caindo no esquecimento objetos de memória importantíssimos para a construção da nossa história. Se Gravataí, hoje é a cidade da qualidade de vida, é por que em seu passado pessoas assim como nós se preocuparam com o futuro. Então a partir de uma história, vamos dizer assim, não oficial procure-se dar voz para sujeitos que testemunharam de alguma forma o contexto pelo qual Gravataí e seu povo foram sujeitos e objetos dos acontecimentos políticos econômicos culturais e sociais que os anos de 1930 a 1970 foram palco.

Referência:

ADÃO, Duarte t Terezinha Oliveira, testemunho oral. Passo das Canoas, Gravataí. RS,2006.

Correio de Gravataí, Cultura, 23ª edição, 2006.

FÉLIX, Loiva Otero. História e Memória: A problemática da pesquisa. Passo Fundo: Ediupf,1998.



GONÇALVES, Jose Reginaldo Santos. Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. [21-29].

LARAIA, Roque de Barros. Cultura um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005

LINHARES, MARIA Ieda (orgn.).História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.

MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2002.

Museu Agostinho Martha. Gravataí. Rs. Documentos da 1ª metade do século XX.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. RS Economia & Poder nos anos 30. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980.

ROSA, Jorge. História de Gravataí. Porto Alegre: Edigal, 1987.

Bom dia História.

Venho por meio deste, publicar meu blog como forma de lutar pela história enquanto ensino. Assim repudio a posição do governo quanto ao descaso pela história. Por isso, esse blog tem por título "HISTÓRIA SEMPRE!"

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

terça-feira, 31 de julho de 2012




Análise sobre a obra de Luiz Antônio de Assis Brasil “A Prole do Corvo”
Luciano Braga Ramos*
            O Romance a Prole do Corvo é uma Obra do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, que pertence a Coleção Rio Grande, sendo este o volume 34 da referida coleção. O livro analisado é a terceira edição datando do ano de 1978, pertencente à Editora Movimento de Porto Alegre.
           
            A obra tem como pano de fundo o cenário dos anos finais do cotidiano rio-grandense sob o contexto da Revolução Farroupilha. Trazendo personagens fictícios que no decorrer da trama vão se mesclando a sujeitos históricos, na maneira típica da literatura de construir uma crítica relacionando elementos históricos e fictícios de maneira que a obra desperte o interesse do público em geral.
             
            A trama obviamente, se passa no Rio Grande do Sul nos anos finais da Revolução Farroupilha, mais precisamente entre 1843- 1845.[1] Tem como personagens Chicão, o estancieiro de Santa Flora, que na trama já se apresenta como um velho moribundo. Sua Filha Laurita é quem toma conta da Estância depois que seu marido Diogo, parte para guerra do lado dos republicanos em 1845.
           
            O personagem-eixo, segundo o autor, e Filhinho, o segundo filho do estancieiro Chicão. Filinho é o personagem pelo qual o autor deixa transparecer sua crítica num outro jeito de se olhar para os acontecimentos da Revolução Farroupilha. A obra procura dar conta de um cotidiano em que surge aos olhos do leitor um Rio Grande hostil violento e machista. Afinal o autor tem a preocupação em mostra que a Revolução Farroupilha – como qualquer outra guerra em qualquer tempo – não era uma unanimidade entre os gaúchos, pois não era a guerra dos gaúchos contra o “Brasil”. Mas sim era uma disputa entre partidos político – entre farroupilhas e caramurus.
           
             O autor no inicio da obra já diz para que veio, questiona, se no fim da Revolução Farroupilha houve vencedores. Se constituindo assim como uma obra reflexiva que até mesmo desmistifica o “heroísmo” e ufania que rondam os temas sobre a Revolução.
            Portanto ponto central é mostrar os por memores de uma guerra. Mostrando a violência, os cadáveres, as angustias do ser humano diante da morte. Sobretudo mostra a falta de perspectiva dos anos finais da guerra, que podem ser resumidos na violência desenfreada, nos saques homicídios e estupros. Tudo procurando evidenciar, e chamar a atenção, do leitor sobre o ponto em que chega o homem diante da falta de alternativas, ou mesmo num mundo em que não se tem alternativas para oferecer.

            Tão cantada e comemorada Revolução dos gaúchos que atravessou o século XIX, chegando aos nossos dias, como motivo de orgulho e elemento de identificação do povo gaúcho, é posta as claras por Assis Brasil. O romance nos leva a refletir sobre as virtudes da guerra dos farrapos – pois é o que foi. Muito estancieiro que não quis tomar partido como o Coronel Chicão, era explorado tanto por forças republicanas como por forças legalistas. A obra evidencia a todo instante a fome a pobreza da província e os privilégios dos comandantes.

            Pois “A prole do Corvo” é isso. Muitas vezes na obra o corvo pode ser entendido como a representação do próprio Bento Gonçalves, e seus comandados.[2] Desde o início da obra o termo corvo já é bem sugestivo. Depois no desenrolar dos fatos fica mais claro a crítica do autor sobre a “desnecessidade” da guerra. Pois  grosso modo, a prole do corvo são os estancieiros políticos que ditam as regras, que mais precisamente vivem da guerra. A farroupilha, podemos argumentar foi uma revolução que não deu certo, mesmo assim seus líderes entraram para história como heróis.

            Talvez os estancieiros do sul – Republicanos – calcularam mal a capacidade do Império do Brasil sustentar por tantos anos uma guerra, visto que o trono estava “vago”. Então quando a situação já não era boa para os farroupilhas era continuar resistindo e achar uma saída “honrosa” – leia-se lucrativa – ou sucumbir as humilhações e execuções como acontecera em outras revoluções contemporâneas.

            Por tanto a Obra a Prole do Corvo, como um bom romance deixa essa margem para questionamentos dos mais variado e uma formação de opinião que mexe com verdades a muito convencionadas. Mas abre uma reflexão sobre o que se comemorar em uma guerra que ceifou vidas dentro e fora do campo de batalha semeou miséria, tirou jovens do seio da família, muitas vezes sem nem saber para o que estavam indo, nem mesmo como no caso de Filinho, sabiam empunhar uma arma. Tudo para que? Para se matar sem saber, somente pelo ódio implantado pelos superiores à soldadesca, sobre os caramurus. Porém a obra deixa claro, que entre os oficias havia uma orquestração da guerra como negócio político e econômico. Tal conjuntura social sob o aspecto destes estancieiros era alimentada por carne humana. Daí o título “A prole do corvo”.

            A final de contas era uma sociedade militarizada a sociedade do século XIX. Assim como a sociedade do escritor, nos anos de feitura do livro. Viviam-se os últimos suspiros do regime como afrouxamento no ano seguinte à obra pela a abertura política. Então podemos, se tratando de literatura fazermos tal analogia. A pergunta chave do autor era se na Revolução Farroupilha houve vencedores. Se levarmos em consideração que do ponto de vista do militares contemporâneos ao escritor, estes estavam certos de que o golpe de 1964 fora uma revolução, que também ceifou vidas entre irmãos da mesma pátria por motivos fúteis e políticos. Então será que o autor não estaria se perguntando via literatura, se houvera vencedores na “revolução” do militares de 1964.













Referências

ASSIS BRASIL, Luiz Antônio de. A Prole do Corvo. 3ª edição. Porto Alegre: Movimento, 1978.


* Aluno do curso de Pós-Graduação – Especialização em História do Rio Grande do Sul 6ª edição, UNISINOS. São Leopoldo, RS. Endereço eletrônico: lucianohistoria.rs@hotmail.com
[1] A data de começo da trama não está explicita no texto, porém levei em consideração, o fato de em uma passagem estar evidenciado que Filinho – protagonista da trama – ficou um ano e meio na guerra, sendo que a trama se desenrola com a assinatura de paz entre Canabarro, e o Barão de Caxias.
[2] Entre as páginas 109-110, fica evidente o uso da metáfora corvo para designar os que viviam da guerra.

REGIONALISMO E NACIONALISMO NO PRIMEIRO PERÍODO DO
GOVERNO VARGAS 1930-1945

Luciano Braga Ramos

RESUMO

A pretensão deste trabalho está em analisar os aspectos que dizem respeito às imagens criadas pelo governo Vargas que serviram para pano de fundo de seu governo, possibilitado num primeiro momento sua ascensão e consequentemente, a afirmação num futuro próximo. Levando-nos a compreensão da importância dos fatores de influência regionais na estruturação do plano nacionalista que se consolida no Estado Novo.

Palavras chave:
– regionalismo – poder – política – nacionalismo – Getúlio Vargas.
INTRODUÇÃO

As questões que envolvem a estabilidade política regional no sul, com a chegada ao poder central pelas oligarquias de segunda ordem dando nova roupagem a política nacional revelam o caminho trilhado por Getúlio Vargas que o levaram do regionalismo num momento de indefinição de certas oligarquias em suas localidades, em contrapartida ao alinhamento de forças do Rio Grande do Sul almejando o "bem maior" à Presidência da República. Já em um segundo momento de afirmação de Vargas no poder se dá, sobretudo a partir das eleições de 1934, e as pretensões e articulações que levaram ao estabelecimento do Estado Novo. Esse segundo momento caracteriza-se pelo papel e crescimento do discurso nacionalista se sobrepondo ao regionalismo que teve seu ponto Máximo na representação e materialização desse nacionalismo no "espetáculo" da queima das bandeiras estaduais. As eleições de 1934, e a consequente vitória de Vargas, o revelam para o Brasil a partir daí um Vargas emancipado do regionalismo, o cenário nacional é o reflexo do internacional, o regionalismo é deixado de escanto em ascensão do discurso nacionalista. Em outras palavras Vargas não dependera somente dos poderes regionais separados. O discurso as vésperas do Estado Novo, é a unidade, é a brasilidade.

1. REGIONALISMO E NACIONALISMO EM PERSPECTIVA
O ano de 1930, em termos políticos e sociais é significativo não só para o Brasil, pelas mudanças ocorridas, mas principalmente para o Rio Grande do Sul, que dentro da ótica da República do Café com leite estava relegado à segunda ordem no status político nacional. Cessadas as desavenças internas no Rio Grande do Sul, entre Libertadores e Republicanos, em 1927, sobe ao governo do Estado Getúlio Vargas. A união regional veio a colaborar para o fortalecimento do Rio Grande do Sul, da onde o PRR e os libertadores levariam Getúlio à presidência da República.1

1 FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2010, P.317.
2
D’ ARAÚJO, Maria Celina. Getúlio Vargas Conservadorismo e modernização. In: AXT, Gunter. Da Vida Para a História: reflexões sobre a era Vargas. Porto Alegre: MMP, 2005, p. 150.
3 Cf. FAUSTO. 2010, p.325.

A partir de 1930, a política de Vargas organizaria o poder partindo do centro da presidência nacional, para estados e municípios pelas mãos dos interventores e intendentes nomeados para executar as funções administrativas a mando do próprio presidente. Assim Vargas acabava de certa forma com a política dos "coronéis" que controlavam os currais eleitorais, dando um golpe no regionalismo político das grandes oligarquias que governaram até 1930. Mas, contudo sem afastá-las definitivamente do cenário político, apenas enquadrando-as aos novos arranjos Varguistas.

Com essas medidas mudava substancialmente o funcionamento do sistema político, reestruturava os canais de acesso ao poder e rompia com a descentralização administrativa e política da República Velha. Isto permitia novos arranjos de poder necessários para levar a cabo as mudanças econômicas que viriam anos depois.2

Portanto ao mesmo tempo em que Vargas desestabiliza os modelos políticos locais na tentativa de implantar outro modelo de governo precisou recorres à união política do Rio Grande do Sul, para que junto com Minas Gerais e as dissidências paulistas implantassem a "revolução" de 1930. Por esses pressupostos podemos estimar que para os anos de 1930-1934, Vargas oscilou entre avanços e recuos entre elementos políticos regionais e nacionais contrabalançando as representações de imagens e discursos para onde quer que os ventos daquela conjuntura o levassem.
A questão das representações que envolvem a imagem regional para um primeiro momento do golpe da "revolução" de 1930 fica latente para Fausto,
3 pela questão que fez Getúlio Vargas de desembarcar no Rio de Janeiro em trajes militares e de Chapéu lembrando
e exaltando suas origens regionais, simbolizando para o Brasil a capacidade de mobilização regional adquirida pela política gaúcha, de forma que a organização no entorno da "revolução" levava ao poder e aclamava seu líder e presidente.

O simbolismo do triunfo regional se completou quando os gaúchos foram amarrar seus cavalos em um obelisco existente na Avenida Rio Branco. A posse de Getúlio Vargas na presidência a 3 de novembro de 1930, marcou o fim da primeira república e o início de novos tempos, naquela altura ainda mal definidos.4

4 FAUSTO, OP.CIT. P. 325.
5 CARONE, Edgar. A República Nova (1930-1937). São Paulo. DIFEL, 3ª edição 1982, pp. 164-165.
6 FAUSTO, op.cit. p. 343.
7
Para compreendermos os conceitos de "outros" e "estranhos", sugerimos a consulta à BAUMAM, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. 1999, cap. 2.
Possivelmente por serem aqueles acontecimentos de 1930, mal definidos, é justamente o que nos leva a poder imaginar, que os vitoriosos de 30 precisavam impor no seu discurso e na exposição de suas imagens, a marca do regionalismo como expressão de poder. Dessa maneira desempenhavam um papel importante com a "nova situação política colocando os "derrotados", até certo ponto, em seu lugar ao menos até os acontecimentos de 1932, acirrarem os ânimos dos paulistas, tão regionalistas como vão se mostrar quanto os gaúchos.
Além da derrota das principais oligarquias paulistas em 1930, e a ascensão de um gaúcho à presidência acabando com a alternância eleitoral e política de poder da república do café com leite, como se não bastasse Vargas nomeou para interventor – um "não" paulista – João Alberto, a 21 de novembro de 1930. No entanto quem detém o poder econômico em São Paulo são as grandes oligarquias, enquanto o poder político está nas mãos dos tenentes. Nesse impasse quem saiu vitoriosa foram as oligarquias paulistas, que em agosto de 1931, derrubam o interventor João Alberto.
5
Na tentativa de acalmar os paulistas em março de 1932, Vargas nomeia para interventor um paulista para São Paulo – Pedro de Toledo – este
"não era, porém um nome de prestigio no Estado".6 Era tarde demais. As forças oligárquicas que se ressentiram do regionalismo do "homem dos pampas" trabalharam o imaginário dos paulistas entorno dos sentimentos regionais destes e de tudo que até aquele momento representou São Paulo política e economicamente. Aflorou um tipo de regionalismo exacerbado, não do tipo racista, mas com aspectos segregadores em relação aos "outros" e aos "estranhos7 – entendam-se gaúchos e simpatizantes de Vargas.
(...) a luta política republicana assumia então aspectos profundamente regionalistas. E o regionalismo, nesse momento específico assumia em São Paulo, um aspecto xenófobo: volantes, jornais, musicas, ilustravam os sentimentos contra o "não paulista" (...) no caso, os gaúchos e os "outubristas", mas também nos nordestinos, presentes em vários níveis de posto e empregos no estado, desde os mais altos até os mais humildes.
8

8 BORGES, Vavy Pacheco. Getúlio Vargas e o Tenentismo. In: AXT, Gunter. P. Alegre; MMP, 2005, pp.61-62.
9 DOCCA, Souza. O Sentido Brasileiro Da Revolução Farroupilha. P. Alegre: Livraria do Globo, 1935. P.26.

E talvez resida aí a importância de se compreender a força do regionalismo, visto que o momento é por assim dizer um momento de mudanças políticas e sociais. O ano de 1930 simboliza a decadência da política aos moldes dos coronéis como já foi dito. No entanto as mudanças desse cunho no campo das mentalidades podem ser consideradas lentas. Por isso a necessária imposição de força e imagem regional é significante praticamente até as eleições de 1934. Nossa análise é relevante se lançarmos um olhar para a obra do coronel Souza Docca (1935),
"o sentido Brasileiro da Revolução Farroupilha". Nesse trabalho Docca, faz uma crítica ao historiador Alfredo Varela que em 1933, escreveu a História da Grande Revolução. Pois bem o trabalho de Varela, é considerado de matriz platina, aborda os aspectos regionais da revolução farroupilha, para o autor ela era separatista. O discurso de 1933 é o discurso regional.
Souza Docca, em 1935, seu trabalho foi produzido com o aval do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Nesse momento o discurso oficial – aceito – é o discurso da brasilidade da Revolução Farroupilha. Discurso que defende a brasilidade do gaúcho. Temos nesse exemplo a importância que se dava ao discurso de brasilidade pondo de escanto a relevância dos aspectos regionais. E consequentemente os autores adeptos do separatismo.

Foi o dr. Alfredo Varela quem, a serviço de sua brasilofobia e abusando da autoridade de seu nome como historiador, tentou nimbrar a brasilidade dos rio-grandenses, negando que a cruzada farroupilha visasse a federação brasileira, fundados em documentos de seu arquivo, que ele cita fragmentaria e interpoladamente "embaralhando-os, complicando as vezes".
9

Portanto percebe-se um momento em 1935, pelo menos em nível de Rio Grande do Sul, que havia um consenso por parte dos intelectuais, principalmente aqueles ligados ao (IHGRS), órgão do governo. O discurso era o discurso de brasilidade as vésperas da ascensão
do nacionalismo Varguista. Portanto ainda não havia acontecido um rompimento definitivo com as forças de Flores da Cunha e o Governo Vargas, apesar dos desacertos no que tange a revolução de 1932. Passando a contenda com os paulistas e a vitória "democrática" de Vargas as desavenças regionais "esfriam"
10 a ponto de se projetar os rumos do nacionalismo.
10
Entendemos que os problemas de aspecto regional "esfriam" por assim dizer, não tanto pela união, mas mais pela cisão no Rio Grande do Sul pelos antigos adeptos de 1930.
11 O governo Vargas pode ser entendido como autoritário ao contrário dos totalitarismos europeus, o autoritarismo admite certa margem de manobra para as oposições, que são praticamente extintas nos regimes totalitários.
12 FAUSTO, op. cit. p. 357.

2. O ESTADO NOVO, O NACIONALISMO DE FATO

O Estado Novo não pode ser visto como um fenômeno instantâneo, que veio a se consumar da noite para o dia em 1937. Ao contrário do que se convencionou por certo tempo na historiografia, o fenômeno do Estado Novo, tem que ser percebido como um processo conjuntural que compreende todo o primeiro período da "era" Vargas. O Estado Novo tem seus embriões ainda em 1930 com o processo "revolucionário", percebemos que este, esteve subjacente, ao regionalismo efervescente nos dois primeiros "momentos possíveis" do primeiro período da "era" Vargas, que vai de 1930 passando pela primeira constituição de Vargas, até as eleições de 1934.
A partir de 1935, podemos considerar que o mundo está passando por mudanças, e Vargas no que parece sempre soube estar atento as mudanças políticas e econômicas a nível global, de forma que Vargas pode ser percebido como um governante multifacetado, que como poucos soube lidar com as transformações que estavam ocorrendo em esfera global. Estas mudanças exigiram novas atitudes na esfera política, era preciso aderir aos novos modelos políticos devido à necessidade de se encontrar um "espaço vital" entre o capitalismo moribundo da década de 1930, e o sonho do nacionalismo aos moldes totalitários europeus,
11 além do "perigo vermelho".
O nacionalismo penetrou com mais facilidade devido ao padrão autoritário como observou Fausto, 2010, o autoritarismo no Brasil era
"uma marca da cultura política do país. A dificuldade de organização de classe, da formação de associações representativas e de partidos fez da solução autoritária uma atração constante".12
O que muda a partir do Estado Novo é que o autoritarismo de Vargas, não é o autoritarismo dos coronéis da República Velha. Podemos dizer que ele segue os aspectos das ideologias dos totalitarismos europeus. Parte-se da idéia que o Estado deveria organizar a
sociedade, ou a sociedade deveria organizar-se a partir do Estado, pois se imaginava que a sociedade não tinha condições de se organizar sem um Estado forte.
"A corrente autoritária não apostava no partido e sim no Estado".13 Embora o autoritarismo e o totalitarismo possuíssem aspectos distintos, Vargas, assim como nos regimes totalitários soube se valer da propaganda, tanto para organizar o golpe de Estado, quanto para sustentá-lo como poder nos anos que se seguiram. Assim como o fascismo e o nazismo, o Estado de Vargas era um Estado propagandista. Na Itália, segundo Perry: "A propaganda fascista inculcou hábitos de disciplina e obediência: „Mussolini tem sempre razão‟. „Acredite! Obedeça! Lute! ‟. A imprensa, o cinema e o rádio idealizavam a vida sob o fascismo, deixando implícito que ele erradicara o crime, a pobreza, e as tensões sociais".14
13 Idem, p.357.
14 PERRY, Marvin, Civilização Ocidental: Uma História Concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002, pp. 570-571.
15 Cf. FAUSTO, 2010, P. 362. O autor também chama a atenção, que os órgãos de repressão já estavam sendo criados antes mesmo do Estado Novo ser Implantado. Já para o ano de 1936 o autor ressalta a criação da Comissão Nacional de Repressão ao Comunismo (CNRC). Este órgão vai dar suporte à afirmação do nacionalismo durante o Regime do Estado Novo.
16
Entende-se imaginário coletivo como um conjunto de imagens visuais e verbais e no seu conteúdo, mentais criados, a partir das representações de quadros sociais significativos para o grupo que os detém, já que conforme Le Goff, (1994, pp. 11-12), "O imaginário pertence ao campo da representação, mas ocupa nele a parte da tradução não reprodutora, não simplesmente transporta em imagem de espírito, mas criadora, (...)".
A respeito da propaganda, ela no governo Vargas serviu para "glorificar" a figura do presidente, como o próprio Estado e o culto ao líder, essa também era uma marca de Vargas. Sobre os crimes e as tensões sociais, esse em muitas vezes são silenciados pela própria máquina do Estado. Tensões sociais são apaziguadas, sindicatos controlam as massas, que tem muitas de suas reivindicações atendidas. A classe média que via no autoritarismo a segurança contra o "perigo" vermelho. Já as tensões políticas, se extinguiram partidos ou foram postos na clandestinidade como o PCB. No entanto, o autoritarismo dá certa margem de existência a algumas oposições.
15
Por outro lado, as máquinas propagandistas do governo Vargas, não só trabalharam para a exaltação do líder as vésperas e durante a vigência do Estado Novo, mas ela serviu também como ingrediente para a formação do imaginário coletivo
16 a respeito das supostas ameaças a ordem pública. O próprio nascimento do Estado Novo buscou suas justificativas de ser na propaganda contra o comunismo, no que ficou conhecido como o Plano Cohen. O plano foi um ingrediente para insuflar os ânimos golpistas.
O Plano Cohen foi levado a público por órgãos do governo como o programa Hora do Brasil, assim como pelos jornais, na tentativa de se concretizar a aceitação social do estado de sítio – primeiro passo para o golpe do Estado Novo.
17 A pós o estado de sítio os efeitos do plano Cohen começaram a dar resultado uma vez que, quem não estava do lado do Estado para assegurar a ordem social, era acusado de subversivo.18 Dessa forma Vargas "eliminou" muitos de seu opositores, como também companheiros de véspera. Caso mais expressivo é o de Flores da Cunha, no governo do Estado do Rio Grande do Sul, que tinha o apoio de Borges de Medeiros, portanto, ex-nicho político de Getúlio Vargas, e mesmos assim acabou exilado.19
17 Cf. CARONE, 1982, p. 369; FAUSTO, 2010, p. 364.
18 Cf. SCHNEEBERGEUER, Carlos Alberto. Manual compacto de História do Brasil. São Paulo; Rideel, 2003, p. 310.
19 Cf. CARONE, 1982, p. 373; FAUSTO, 2010, p. 364; SCHNEEBERGEUER, 2003, p. 373.
20 OLIVEIRA, Lucia Lippi. Estado Novo: Tradição e Modernidade. In: AXT, Gunter. Porto Alegre; MMP, 2005, p. 101.

A partir destes pressupostos, podemos perceber a questão que havíamos levantado no início do trabalho, ou seja, a ascensão do nacionalismo, ocorrendo, mesmo que para isso antigas forças aliadas no período onde o regionalismo era importante e vital para a sobrevivência política, para que no momento do Estado Novo fossem "eliminadas". Uma vez consolidado o Estado Novo em 10 novembro de 1937, a propaganda de caráter nacionalista vai ser a "alma do negócio".
Com a ascensão do nacionalismo em detrimento do regionalismo a nível político não significou que houvesse um rompimento com o passado, porém ambicionava-se em termos sociais construir uma memória para o povo brasileiro e a partir daí a identidade nacional. Em outras palavras a propaganda regional naquele momento estava voltada para o "bem maior", a unidade nacional, para a brasilidade do povo brasileiro. Para Oliveira, memória, história e tradição são elementos essenciais na construção dos nacionalismos, pois:

A tradição constitui parte da experiência passada que é então valorizada. Apele-se para a história e para a memória envolve o recurso a experiências compartilhadas, reais ou inventadas. (...). O Estado age para juntar as pessoas em um povo que se sente unificado por origens comuns mitológicas ou históricas, que passam a falar uma língua comum.20

O Estado Novo pretendia unificar as regiões do país de forma que um indivíduo antes
de ser paulista, teria que se sentir brasileiro. Até mesmo no Rio Grande do Sul, terra natal do presidente Getúlio Vargas disseminava-se a idéia de brasilidade do gaúcho no primeiro período Vargas. Prova disso foi as comemorações do centenário da "Revolução" Farroupilha em 1935-36, que tinha como temática exaltar a brasilidade dos farroupilhas – que segundo a maioria dos intelectuais da década de 1930, foi uma revolução pela federação.
21 A nível nacional a imagem que se convencionou foi a do Getúlio "pai dos pobres". Essa talvez fosse a principal imagem de Vargas que serviu de carro chefe de suas campanhas. Porém a produção de imagens sem conteúdo social, sem um fio condutor de pouco adiantariam e se tratando da conjuntura em que Vargas se encontrava as possibilidades estavam abertas.
21 Cf. DOCCA 1935.
22
FAUSTO. Op. cit, p. 370.
23
Cf. D’ARAÚJO, In: AXT, 2005, p. 151.
24 Cf.
FAUSTO. 2010, p. 375.
Foi no período do governo Vargas no Estado novo que a industrialização tomou vulto, também uma maior participação em negociações com o comércio exterior. Assim o Brasil estava deixando de ser um país basicamente rural, tornando expressivos os seus centros urbanos.
"A partir de novembro de 1937, o Estado embarcou com maior decisão em uma política de substituir as importações pela produção interna e de estabelecer uma indústria de base".22
Porém conforme D’Araújo,
23 a indústria já a partir de 1934, começa a ganhar força e passa a ser uma preocupação para o governo. Essa indústria possibilitou a criação de expressivos centros urbanos e com eles a classe média e o proletariado. Esses em 1937 em diante passam a constituir o público principal que serviu de platéia aos espetáculos do Estado Novo que se materializava em discursos, festas e comemorações, como a data do 1º de maio, com desfiles cívicos de escolas, os discursos do presidente nos estádios, e tudo o mais que pudesse servir de pano de fundo ao Estado Novo. Em todos os festejos o personagem principal era sobre a pessoa do presidente e do Estado no culto à imagem.
A propaganda teve um importante órgão criado para essa função – de trabalhar a imagem do Estado e do líder – o Departamento de Propaganda e Imprensa (DIP). De acordo com Fausto,
24 a idéia era formar uma ampla opinião pública censurando e controlando a imprensa cabendo ao governo fazer a elaboração de sua história como versão fiel dos acontecimentos e da imagem do Estado forte. Essa preocupação sempre foi uma constante já no ano de 1931, surgiu o Departamento de publicidade. Para o ano de 1934, foi criado o
Ministério da Justiça o Departamento de Propaganda e Difusão da Cultura que teve vigência até 1939.
Percebemos por essa análise que o Estado Novo não foi o acaso como já foi demonstrado no início do capítulo, e sim seus organismos já estavam implícitos nas multifacetadas formas dentro do primeiro período Vargas. Mas é sob o Estado Novo que o controle da opinião pública passa a fazer parte da rotina de controle do Estado. "O estado Novo perseguiu, prendeu, torturou, forçou ao exílio intelectuais e políticos, sobretudo de esquerda e alguns liberais".
25
25 Cf. Fausto. 2010, p. 376.

Portanto o Estado Novo significou de certa forma pelo seu conteúdo nacionalista um corte entre a velha e nova política brasileira nos aspectos regionais que na verdade não condiziam com a política de unidade nacional. Porém, mesmo assim é nos Estados e Municípios que Vargas concentrou sua força disputando com as oposições. E o Estado Novo dá o golpe de morte ao menos em sua vigência nestas oposições quando impõe o discurso de unidade deslegitimando o sistema coronelístico de governo local. O Brasil agora estava voltado para os acontecimentos "globais".

CONCLUSÃO

Será mesmo que podemos concluir o período Vargas em poucas páginas? Pode ser muita presunção querer concluir algo tão complexo quanto a Era Vargas, ou ao menos um período de sua conturbada história política. Vargas por assim dizer se tornou um sujeito emblemático por várias razões que dariam outros tantos artigos. Queiram ou não, Vargas antes de ser um líder ideológico foi um estrategista que soube se moldar ao calor dos acontecimentos em que participou independente de ideologia. E talvez seja aí que se encontra sua capacidade para sobreviver aos conchavos políticos regionais à passagem para o nacionalismo. Conseguindo ainda ser populista – mesmo sem ser popular – na década de 50.
Analisando sua trajetória Vargas foi revolucionário em 1930, em 1934 ganhou as eleições, no Estado novo foi ditador. Em 54 sua morte mesmo fez parte da estratégia de trabalhar a imagem do líder carismático. Sua influência foi tão forte que em muitos aspectos os "revolucionários" de 1964, estavam tirando do poder um representante da Era Vargas. O ex-governador do Estado do Rio Grande do Sul Leonel Brizola quando volta do exílio – final da década de 1970 – representa o herdeiro daqueles tempos da Legalidade, com a criação do PDT.
Retornando a era Vargas, percebemos que todo o esforço de propaganda e da imagem de Vargas por ele e seus seguidores foi idealizada com o intuito de se chegar ao nacionalismo no primeiro período da Era Vargas. Desse ponto de vista a projeção de um Estado forte aos moldes dos nacionalismos totalitários foi um modelo que estava em voga. No entanto a implantação do autoritarismo era mais condizente com a diversidade do povo brasileiro.
Como bem apontou D’Araújo,
26 Vargas personificou não só o governo como também as mudanças sociais que passaram a ser atribuída a pessoa de Vargas. Porém precisamos procurar entender a conjuntura a partir do olhar daqueles que a viveram sem lançarmos valores nossos aquela conjuntura se é que isso é possível. Se for possível fazer isso a partir dos indícios que nos chegam ao presente podemos compreender que Vargas foi o que foi, ou passa para a história como o "pai dos pobres" porque havia um "momento possível" para que tais fatores ocorressem.
26
Cf. D’ARAÚJO, In: AXT, 2005.
27 Cf, Viotti. Da Monarquia a República. 1999.

Até 1930, a sociedade brasileira ainda estava vivendo num contexto muito semelhante do que fora os últimos anos do Império do Brasil.
27 Um Império moribundo que o poder estava nas mãos dos produtores burgueses do café. Estes mesmos que ajudam a dar o golpe no Império e que consequentemente dominam toda a política da República Velha. Estes não mudaram muito a situação do povo brasileiro. Porém a partir de 1930 em diante há uma relevante mudança que se processara durante todo o período Vargas até desembocar no populismo nos anos 1950.
E suma, para um povo que em matéria de benefícios e inclusão política e social, sempre ficou a margem, os "novos’ tempos traziam pela primeira vez a perspectiva de uma república de fato no que toca a questão de incluir as massas a partir dos sindicatos, da formação da classe média que se constitui um mundo a parte fora do contexto rural da República Velha. Os ingredientes escolhidos por Vargas para dar uma cara ao Brasil no pós 1930 acabam tornando-se o conteúdo social que sustentou a propaganda de seu governo. Este governo hoje para nós que estamos distanciados dos fatos parece contraditório. Mas a partir do olhar daqueles que viveram o período e que chegam ao presente na documentação, podemos entender a euforia de grande parte do povo brasileiro no entorno do festival de discursos e propagandas Varguistas. Que em muito ganhou credibilidade devido à indiferença praticada contra o povo nos governos anteriores à "Revolução" de 1930.
Na qualidade de historiadores, dentro da ótica da Nova História, não pensamos em exaltar a pessoa de Vargas. Pios temos conhecimento das múltiplas faces de Vargas. Mas a Era Vargas ainda se constitui como um objeto a ser explorado pesquisado como potencial campo para novas releituras que possam a vir contribuir para o entendimento da história da jovem República brasileira e o incipiente período democrático tão contraditório.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
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Getúlio Vargas e o Tenentismo. In: AXT, Gunter. Da Vida Para a História: reflexões sobre a era Vargas. Porto Alegre: MMP, 2005, pp. 57-67.
CARONE, Edgar.
A República Nova (1930-1937). 3ª edição. São Paulo: DIFEL, 1982.
D’ ARAÚJO, Maria Celina.
Getúlio Vargas Conservadorismo e modernização. In: AXT, Gunter. Da Vida Para a História: reflexões sobre a era Vargas. Porto Alegre: MMP, 2005, pp.147-165.
DOCCA, Souza.
O Sentido Brasileiro Da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1935.
FAUSTO, Boris.
História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 2010.
OLIVEIRA, Lucia Lippi
. Estado Novo: Tradição e Modernidade. In: AXT, Gunter. Da Vida Para a História: reflexões sobre a era Vargas Porto Alegre; MMP, 2005, 97-104.
PERRY, Marvin
Civilização Ocidental: Uma História Concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Sugestão de Avaliação de História para o 6º ano

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